quinta-feira, 12 de março de 2009

Medo velho

E depois, o quê? Enquanto reza ou injeta, você observa a dúvida como se ela fosse uma bússola cujo pólo norte é um Triângulo de Bermudas quântico, onde possibilidades colidem e naufragam, escarrando na cara de homens-maçã ao ocupar o mesmo lugar no espaço entre duas orelhas sujas de cera e mel de abelhas cachorras e safadas: tu gosta que eu sei. Carne deseja carne, seja para comer, seja para foder, mas acima de tudo, para não apodrecer; inútil tentativa, pois o destino de todo homem é ser cadáver, nuvem, chuva, menina, fogo e rebimboca da parafuseta em uma engenhoca cósmica capaz de olhar para si mesma em noites de céu malhado e auroras de um pavor viscoso e dizer "caralho!", quase sempre sem se tocar que não admira galáxias e quarks, cordilheiras e milagres, e sim ombros e cílios, dentes e unhas. Olhos que fitam diamantes terríveis e perfeitos, mas enxergam apenas instantes. Não seja bobo: instantes não existem, apenas diamantes.
Você não se lembra?

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Showdown à beira do abismo

As paredes do meu último abrigo chacoalham forte enquanto a tempestade lá fora mói amigos e estrelas. O vento que ruge também sussurra estilhaços, olhares de escárnio e grandes finais para romances de rodoviária. Se você prestar atenção, pode até entender como o pretérito se tornou imperfeito e planejar um futuro melhor, 2.0, sua realidade vó, sempre disposta a passar a mão em sua cabeça e acordar você com um copo de Nescau. O vento marreta as paredes enquanto sopra a história de uma vida de instantes desonestos, metronomos, jamais parando no único lugar real, onde as forças gravitacionais de ódio/amor e apego/medo não podem afogar cérebros em marés altas, território exclusivo de répteis que matam ou escapam. E só.
Confiro os ferrolhos da porta, certo de que irão segurar a tormenta e me manter livre do vórtice, mas a esperança, um anão obeso e vestido como um palhaço, mas que ri como se eu fosse ainda mais ridículo, é o calcanhar de aquiles de meu refúgio, abrindo frestas por onde entra o som, o cheiro e o pó do vento, transformando espectativa em desejo de aniquilação, indo direto no nervo, trincando dentes e espelhos, me fazendo desejar coisas horríveis e vergonhosas, tolices com as quais eu não deveria me demorar. Mas ouvir a voz do vento é saber de muitas coisas, é quebrar a obra de arte perfeita em infinitos cacos para depois batizá-los. É trocar os olhos de quem ama você por um rival montado com memórias e sonhos, um espantalho sob um céu sem corvos.
Não quero mais brincar disso. Melhor destrancar logo essa porta e deixar o vento arrebentar com tudo. É hora de entoar o mantra mais sagrado, e com vontade: Foda-se.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Epifanias que não levam à nada (2)

No princípio, não havia o Verbo, apenas interjeições distraídas de si. Eis que [Linguagem] coloniza [Homem], sem saber o significado de seu ato. [Homem] nada sabe de significados, apenas age. Não são opostos, são metades. São ímãs, ying e yang, Romeu e Julieta, Hitler e Churchill. Juntos, saciam fomes que imaginam possuir, e emulando virais asiáticos, vomitam um na boca do outro livros e pontes, acenos e estrofes, deuses e funerais, profecias e logotipos. Paradigmas erguem-se das profundezas de um oceano cinzento e eletroquímico para depois afundarem como Atlântidas menos metafóricas do que supomos. Nossos nomes são âncoras que nos impedem de, à deriva, cruzar a fronteira de um nevoeiro de signos, enquanto lentamente nos arrastam para fossas abissais, onde escafandros são pálpebras de láudano, úteros que nos privam de nosso próprio parto. Somos uma espécie cômica, ao menos no que toca nos crermos uma espécie, fato portador de uma ironia única e uma verdade ambígua, o único tipo possível. Somos homens e mulheres, colônias de bactérias, impérios de fungos, escombros de cometas e saloons de guaninas vadias. Somos cadeias de carbono e de supermercados, onde putas e larvas empurram seus carrinhos em direção ao caixa, que reluzem nebulosos e vermelhos, certos do retorno de clientes insatisfeitos porque sempre têm razão. Não encontrará aqui respostas para este dilema, nem para outro qualquer: apenas palavras, açúcar para seus olhos. Almas gêmeas de egos pernetas. Moedas tiradas de sua orelha. O que diabos você quiser.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Samsara Forever

Com minha alma em seu inverno, entrego meu nirvana por um passo em falso, algo que me lembre da minha carne viva e da sua pele, salobra a qualquer paladar onisciente. A mente produz refugos, boddhisattvas que duelam empunhando mantras, sutras, relâmpagos e caduceus de puro entendimento, derrotando nada mais que suas próprias palavras, lâminas trincadas e imperfeitas. Não mais meia lótus. Não mais desapêgo de toda esta teia de Megahertz, terabytes, memes alheios e viagens em máquinas do tempo montadas em laboratórios que sentem medo, detritos criando um anel de poeira que gravita em torno de um planeta cujo núcleo esfria a cada instante perdido pensando em instantes perdidos. Termos apenas uma chance me parece agora assustador, mas é também um imenso privilégio, negado a todo o panteão de deuses e pop stars que habitarão esta mentira agridoce, este oceano repleto de sereias e faróis sem vigia, um koan sem reflexão alguma depois. Para nós, anônimos e únicos, há a possibilidade de entender, de aceitar, de deixar a onda bater com tudo, e na espuma do caixote, abrir um sorriso sincero. Há a chance de escapar de todos esses algorítimos kármicos e residir apenas na aritimética consciente onde Eu e Tudo, homem e cosmos, subtraem-se a apenas um.
E
são
Zero.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Voltando para casa

Estou voltando para casa. Calçando nomes emprestados de santos, bardos e monstros, caminhei por muito tempo em territórios feitos de medo e apego. Desci crateras e desfiladeiros iluminadas apenas por archotes à prova de toda a água salobra que irriga estatísticas que, enquanto lambem o sangue do seu dia seguinte, sussurram em seu ouvido histórias vividas por um único personagem andrógino e anônimo, mas que pensa ter nome e receber um abraço seu sempre que você abre a porta da cozinha. A cada passo, fiz-me cartógrafo e mapa, desenhando golfos, enseadas, cordilheiras e mares em carne viva e saliva batizada, nomeando-os de acordo com a força de ventos que invariavelmente sopram na direção de algum oásis no deserto. Mas não há oásis e não há deserto; há miragens, um caledoscópio sensorial onde matamos e fodemos, pagamos contas e pecados, sonhamos e esquecemos, para no fim deixar como herança um último sopro na face de alguém que nos amou por um momento. Estou voltando para casa. Jogo fora bússolas e não pergunto direções. Me guio apenas pela luz negra da supernova em perpétua explosão visível apenas quando se olha para o zênite, de tamanho brilho que incendeia retinas feitas de todas as ilusões esquizofrênicas, certas de que são quem apenas eu posso ser. Quando chegar à porta, deixarei todas as coisas acumuladas durante os anos. Rasgarei cartões postais de lugares que só existiram quando decidi enxergá-los através de minha catarata. Ao passar pela porta, minhas rugas se tornarão cinzas e minhas cicatrizes, sonhos. Largarei meus desejos e deixarei que cheguem até a estratosfera no porão. Quando chegar em casa, hei de apenas Sou. Finalmente, sentarei à lareira e, fascinado e grato, contarei uma história de carbono e mantras.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Epifanias que não levam à nada (1)

O que ando fazendo, deixando fraturas expostas calcificarem em praça pública? Carregando no drama e aproveitando uma pseudo-febre como quem aproveita um bloco de carnaval que passa convenientemente em uma manhã chata e quente, eu solto o verbo da coleira, um Galgo rábico que se parte ao meio ao tentar seguir dois ou mais coelhos atrasados para ver suas rainhas vermelhas, que como críticas severas, mandam cortar minha cabeça ao menor sinal de hesitação (minha, nunca delas.). Portanto o crivo de quem me pega em flagrante sempre causa expectativa, mesmo (quasi)ciente de que não há flagrante em algo que já está feito e não há expectativa em algo que vem do Outro. Não gostou, não leve com você em sua tarde atarefada, em suas viagens registradas com sorrisos em papel fosco com borda branca, em sua cadeirinha da Brahma na beira da calçada com a galera, nem em sua própria veia literária. Deixe aqui o que você não quer daqui que aqui também não fica aquilo que você pensa que tem para oferecer. E segue o texto, o registro de algo cotidiano e milagroso, encadeado ainda que mal, e enfileirado como os vagões de um trem cuja última parada é sempre a mesma para todos os homens e do qual eles tentam fugir fazendo exatamente isso: olhando a vista da janela e vendo a si mesmos no reflexo do vidro, pois somos todos por um instante as palavras que deixamos no caminho, até não sermos mais nada além delas. E se por algum acaso outro alguém vier a encontrar-se com elas, nossas palavras, poderemos sentar um pouquinho na janela de outros vagões, com outros passageiros apreciando a vista, pois não é o leitor que experimenta o autor, e sim o contrário.  Este texto não é nada mais que o rastro de gosma de minha mente caramuja. E, sem pedir licença, eu me arrasto um pouquinho pela sua vida. 

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Metafísica para picaretas

“Século escorre, Aeon expira.

Pior é que vosmecê acredita.

Foi, seria e será; enfim, oxalá.

Prestidigitação cósmica, estelar.

Segundos, minutos, anos e dias.

Hydras, medusas, quimeras sortidas.

Atrasam, apressam; prontas mordidas,

Mastigam, devoram mentes falidas,

Prometem sorrindo, futuros cifrados.

Alva bruma em glorios'aurora,

Turva, embaça a luz – e a gente gosta.

Saibas que não há meses nem eras:

apenas és.”

Barão de Tinguely, Cartas A Se Queimar, 1881.



Não quero ver o sol nascer com você. Não quero fazer um piquenique à sombra de um velho carvalho importado de algum filme Americano diabeticamente romântico em seus sonhos. Não quero segurar uma criança nos braços e, ao olhar para você, sorrir emocionado, pensando que tenho no colo não o meu, mas o nosso filho. Não quero, após uma briga feia causada por um projétil perdido em nossa então costumeira troca de tiros vocabulares, dançar com você a velha macareña rancorosa, desesperada e sôfrega do sexo de reconciliação, o bom e velho fio verde cortado, de uma bomba relógio que sempre volta a se armar. Não quero me apaixonar por você de novo, após 30 anos de alegrias e frustrações, mas sempre achando que valia a pena tentar mais um pouco. Não quero sequer me apaixonar por você semana que vem, ao me dar conta de que aquela morena da próxima noitada é gata, está me dando a maior condição, pode virar uma foda depois das 3 da manhã e de 4 tequilas, e mesmo assim não consegue afastar você dos meus pensamentos. Não quero, enfim, nada que não esteja acontecendo neste exato momento, que não passa de mim, você, dessa varanda bendita que nos salvou da barulheira da festa lá dentro e desse cheiro de Dama da Noite do jardim lá embaixo. Minha mente está aqui, com você e comigo mesmo, tomando um mojito e olhando nos seus olhos, jamais sentado em uma poltrona confortável, zapeando por centenas de televisores com seriados românticos e dramalhões mexicanos protagonizados por duas pessoas que, forçando muito a barra, possuem leve semelhança conosco, se perdêssemos completamente o bom senso e comprássemos carapuças Made In Merda Na Cabeça. Não tenha medo, estou aqui para salvá-la desses pensamentos turbulentos. Aqui estou, cavaleiro andante que sou, para puxá-la do vórtice, do rodamoinho que rasga sua alma com estilhaços de meninas mais bonitas que você, passeando com namorados que nunca lhe pegarão na saída da aula de francês, ou quem sabe de uma tarde de sol onde você ficou triste sem querer e colocou a culpa na falta de um pezinho esfregando-se no seu debaixo do edredon. Ande, estique sua mão, segure firme na minha e tudo ficará bem.

Isso mesmo.

Enfim sós.

_E aí, nenê? Qual o seu nome? Tem namorado?